• Dos Afros Pro Mundo

Black money: o que é e como funciona no Brasil


Movimento estimula compras e prestação de serviços entre afrodescendentes; renda dessa população é de R$ 1,65 trilhão no Brasil


Texto: Guilherme Soares Dias/ Edição: Thais Folego*


foto: taylorckt1-nappy


Se não me vejo, não compro. Escolho adquirir de empreendedores negros para circular o dinheiro entre os afrodescendentes. Esses são os dois principais nortes de um movimento que começa a ganhar força no Brasil, chamado de black money (dinheiro negro). A expressão nasceu nos Estados Unidos para definir dinheiro ilegal, mas foi ressignificada pela comunidade negra para incentivar o consumo de produtos e serviços produzidos por afrodescendentes e levar ao público consciência social, econômica e financeira.


Os afroamericanos representam apenas 12% da população norte-americana, mas têm uma tradição maior de consumirem na própria comunidade e terem maior presença nas propagandas e negócios com escala. Por aqui, 55% da população – 112 milhões de pessoas – se declara de cor preta ou parda, mas o racismo estrutural é tão forte que os afroempreendedores faturam apenas 36% do total gerado pelas empresas. Os números são bastante desfavoráveis (conheça alguns deles abaixo).


112 milhões de negros no Brasil, o que o torna o 11° país do mundo em população e o 17° em consumo.Em 2004, 48% dos brasileiros se autodeclaravam negros. Em 2017, esse percentual saltou para 55% da população.86% dos negros afirmam ter orgulho de quem são.84% dos brasileiros se preocupam em perder o padrão de vida conquistado. Entre os negros esse número salta para 91%.57% dos brasileiros tem algum parente que perdeu o emprego, entre os negros 64%.Fonte: Instituto Locomotiva a partir de PNAD/2015


Em 2018, a massa de renda dos negros será de R$ 1,65 trilhão, mas a desigualdade salarial entre negros e brancos representa um prejuízo de R$ 808 bilhões para o país. O valor é a soma da diferença entre os salários dos brancos e negros. Ou seja, se o salário dos negros fosse equivalente ao dos brancos o montante a mais em circulação chegaria a quase R$ 1 trilhão.


Paulo Rogério Nunes, fundador da aceleradora de negócios sociais Vale do Dendê, sediada em Salvador e que incentiva principalmente afroempreendimentos, observa que o black money tem ganhado impulso nos últimos dois anos. “Há 30 anos ninguém acreditava nisso. Hoje, os negros estão começando a ter consciência de que o bolso pode mudar politicamente a situação, decidindo comprar de pessoas que se parecem com eles”, diz. Ele explica que o empreendedorismo pode ser uma alternativa de renda ao emprego formal em tempos de níveis de desemprego alto. “Há ainda a junção do discurso ativista, a partir de uma consciência racial crescente, com a crise econômica e a criação de empreendimentos comerciais de pessoas negras e voltados para a essa população”, completa.



Paulo Rogério no Suburbio de Salvador foto: Heitor Salatiel


Nos EUA, a população foi obrigada a criar empreendimentospróprios por conta da segregação racial. Desde o restaurante até a funerária, os negócios eram geridos por afroamericanos nos bairros negros. Com a abertura maior do país nas últimas décadas, os negócios de brancos aumentaram nesses territórios. Contudo, as mortes de negros pela polícia tiveram como resposta um maior consumo de negócios negros, e a retirada de dinheiro de bancos tradicionais para os chamados bancos negros, que já somam cerca de 70 instituições.


Esse movimento de incentivo para migrar investimentos de bancos brancos para bancos negros ficou conhecido como Bank Black Challenge (Desafio do Banco Negro). O OneUnited é atualmente o maior banco de propriedade de negros e o primeiro banco online negro dos EUA. No Harlem, bairro negro de Nova York, algumas células de dinheiro são carimbadas e devem circular apenas entre afrodecendentes. “É uma resposta, já que por lá o dinheiro demora 28 dias para sair da comunidade asiática, 19 dias entre os judeus, sete dias entre os hispânicos e apenas seis horas na comunidade negra”, contextualiza Fernanda Ribeiro, fundadora da Afrobusiness, rede de empreendedores negros brasileiros que promove a circulação e fortalecimento dessa cadeia.


No Brasil, o movimento é mais recente e a maior parte dos negócios é embrionária e não tem escala. “Vejo com animação esse processo, que vai passar por um amadurecimento. O desafio será vender de maneira ampliada”, afirma o fundador da Vale do Dendê. Ele acredita que o crescimento do movimento será acompanhado do aumento da consciência racial. “Queremos representatividade também no consumo”, afirma. Entre as iniciativas neste sentido, Paulo Rogério aponta o surgimento de cartões de crédito negros lançados pela Central Única das Favelas (Cufa), pelo Olodum e pela Conta Black.


“A partir do momento em que pararmos de consumir de empresas desiguais forçamos o sistema a se adaptar a real necessidade desse público que está em busca de melhor representatividade e espaços”, defende o Movimento Black Money em seu manifesto. Nina Silva, fundadora do movimento no Brasil, ajuda a incentivar compras e promove cursos de autonomia para aprimorar os negócios de empreendedores negros. Há ainda o D’Black Bank, um “banco digital” com circulação de dinheiro, transferências, educação financeira, taxas mais baixas do que os bancos tradicionais e retorno do lucro para investimento nas capacitações promovidas.


Outro negócio financeiro voltado para a comunidade negra no Brasil é a Conta Black, startup financeira que oferece conta digital. Esse tipo de negócio tem uma regulamentação mais simples do Banco Central, pois opera em parceria com outras instituições financeiras. O empreendimento surgiu no ano passado após o publicitário Sérgio All ter o crédito negado no banco em que era cliente. Ele se juntou à turismóloga Fernanda Ribeiro e criou a Conta Black. Atualmente, são cerca de 500 usuários, sendo 80% negros. A meta é chegar a 10 mil clientes nos próximos meses. Com a conta é possível realizar transferências, cobranças e pagamentos. Há ainda a possibilidade de ter cartão de crédito.


Fernanda Ribeiro reforça que não encara o black money apenas como um movimento econômico, mas como identidade cultural. “Criamos solução a partir da nossa cultura, que costuma ser marginalizada”, afirma a fundadora da Afrobusiness e da Conta Black. “Vamos conectando as pessoas negras, já que a maior parte do capital não está no nosso domínio. Desenvolvemos os negócios intrarede”, explica.


Nina Silva lembra que o Movimento Black Money é justamente uma resposta ao racismo institucional que provoca desigualdades. “O black money não é pedir para ser incluso. É a união das pessoas negras para boicotar empresas que não nos incluem. É consumir de pessoas como nós e fazer circular o capital econômico e cultural. A ideia não é só gerar riqueza é ter nossas instituições financeiras, educacionais e estar em todas as esferas de poder”, conclui.


A população negra é a que mais entende de impacto social e economia de propósito, de acordo com Paulo Rogério, da aceleradora Vale do Dendê. Além disso, ele ressalta que a realidade dos negros das periferias é parecida. E que um negócio do Subúrbio de Salvador, por exemplo, pode ser consumido no Complexo do Alemão, no Rio. Ele dá como exemplo o Saladorama, que nasceu com o propósito de universalizar o acesso à alimentação saudável em regiões mais pobres e começa a produzir em escala.


A Vale do Dendê visa valorizar a produção da economia criativa em Salvador, tornando-a um polo inovador, como ocorre com o Vale do Silício nos EUA. Hoje, dez empresas passam pela fase final de um processo de aceleração. Nesse segundo semestre, a aceleradora lançou uma escola de inovação que está capacitando os empreendedores locais.


Há ainda o desafio e a oportunidade de empresas negras escalarem a produção e começarem a vender para a América Latina. “Colômbia e Equador são mercados naturais para empresas negras por conta da grande parcela dessa população por lá também. Eles olham para o Brasil como referência, já que ainda não têm esse movimento consolidado. Se nossos empreendedores chegarem lá, conseguem crescer rápido”, acredita o fundador da Vale do Dendê.


O empreendedorismo por necessidade é velho conhecido da população negra brasileira, que historicamente viveu a margem do mercado de trabalho formal. Foi dessa realidade que nasceu a Feira Preta, considerada como o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina. Idealizada por Adriana Barbosa, a iniciativa existe desde 2002. No início era apenas um espaço, em São Paulo, onde ela e a amiga vendiam roupas que não usavam mais e logo depois ganhou a proposta de feira, onde a ideia era vender produtos feitos por pessoas negras para pessoas negras.


A Feira Preta viveu momentos de altos e baixos e resistiu para existir no cenário de São Paulo. Hoje, ganhou escala e já chegou também no Rio de Janeiro, Brasília e São Luís, tendo arrecadado cerca de R$ 4,5 milhões para 900 expositores nos últimos 16 anos. No ano passado, o evento reuniu 27 mil pessoas, que gastaram em média R$ 250 nos produtos expostos. No futuro, há intenção de ampliar o trabalho e levar os expositores brasileiros para Colômbia, Estados Unidos e países da África.


Entre as transformações nesse período, Adriana lembra dos processos de transição capilar que mudaram o mercado de cosméticos, que passou a oferecer produtos e serviços que atendem as especificidades das pessoas negras. “De 2011 para cá, há uma demanda maior por produtos específicos e produção que está sendo feita em massa pelos empreendedores negros”, observa. Nesse processo, as mulheres negras foram para o Youtube e redes sociais comentar como é não usar química para alisar o cabelo e criaram uma onda de ressonância, deixando a química e adotando o cabelo natural, conta Adriana. “Hoje há um novo negócio para o cabelo crespo, ondulado.” Esse processo é visível nas ruas e também no comportamento das consumidoras: as buscas na internet por produto para cabelo crespo superou o de cabelo liso em 200% em 2017.


A criadora da Feira Preta afirma ainda que as empresas tradicionais de mercado não atendem aos anseios e demandas da população negra. “Avançamos, mas temos muito o que evoluir. Ainda é preciso qualificar a produção. Incluir os negros em todas as etapas. Não adianta só fazermos bonecas pretas, temos que produzir a linha, o tecido. É preciso dominar o processo como um todo”, defende.



Adriana Barbosa, Presidente do Instituto Feira Preta


O mercado de moda, inclusive, tem se mostrado um grande filão para os afroempreeendedores. Aí a lista de iniciativas é interminável. Na Bahia despontou o Afrobox, primeiro box multimarcas do Brasil focado em moda afro idealizada por Yan Ragede, que é também fundador da Dos Afros pro Mundo. Outros novos negócios com o mesmo foco são a Kilombu, (diretório de negócios negros) e loja Kumasi (marketplace de moda étnica). Já Bruno Brigida de Souza criou o clube Clube da Preta – um box de assinatura de empreendedores afros da periferia. A caixa que chega aos clientes a partir de R$ 79 por mês leva livros, cerveja, acessórios, turbante, vestido e camiseta. Hoje, são cerca de 100 assinantes e a meta é chegar a 400 clientes recorrentes nos próximos seis meses.

O caminho percorrido pelos empreendedores citados é o mesmo sonhado por outros negros do país. Enquanto 25% dos brasileiros pensa em abrir um negócio próprio, entre os negros esse percentual chega a 36%. “Essa vontade é maior entre pessoas de cor preta ou parda porque eles não têm alternativa. A maioria abre negócio por necessidade. Para negros, ter empresa é bico, para os brancos é startup”, provoca Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.


A maioria dos negócios de pessoas negras está na categoria MEI (Micro Empreendedor Individual), nos setores de comércio, serviço, moda/vestuário, estética e alimentação, de acordo com a Pesquisa Nacional Negro Empreendedor realizada pelo Baobá – Fundo de Igualdade Racial em parceira com o Instituto Feira Preta, em 2015. Paulo Rogério, da Vale do Dendê, cita a economia criativa, como área de forte presença de empreendedores negros, como exemplo a música, audiovisual, turismo, gastronomia e estética.


Ao todo, são 13 milhões de empreendedores negros no Brasil, 52% do número total. Mas os empreendedores negros ganham menos. Enquanto o empreendedor branco declara receber em média R$ 3.098 pelo seu trabalho, o empreendedor negro declara receber, em média, R$ 1.388 (43% da remuneração do empreendedor branco).


A renda média do trabalho principal (para quem tem ensino superior) Homem branco R$ 6.702 Homem negro R$ 4.810 Homens brancos ganham 29% a mais do que homens negros Mulher branca R$ 3.981 Mulher negra R$ 2.918 Mulheres brancas ganham 27% mais do que mulheres negras Homens brancos ganham 57% mais do que mulheres negras Fonte: Instituto Locomotiva a partir de PNAD/2015


Além disso, os empreendedores negros sofrem com problemas que os brancos nem sonham: 57% das pessoas de cor preta e parda declara sofrer preconceito quando tenta abrir seu próprio negócio. O acesso a dinheiro também é outro desafio: linhas de crédito são negadas três vezes mais para negros do que para brancos, de acordo com pesquisa encomendada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Nesse cenário adverso, Carlos Humberto Souza, presidente e fundador do Diapora.Black, lembra que os empreendedores negros trabalham com a criatividade. “Sabemos trabalhar com o negativo e podemos gerar impactos positivos em todos os processos da produção”, diz ele, que criou uma rede de hospedagens dedicada a viajantes negros.


‍71% dos brasileiros adultos já presenciaram alguma cena de humilhação ou discriminação racial no último ano.

Apesar de apenas 9% dos brasileiros reconhecerem que já disseram alguma frase racista, 62% dos brancos admite já ter falado algo como “seu cabelo parece Bombril”, “seu macaco” ou “trabalho de preto”, entre outras. Fonte: Instituto Locomotiva a partir de PNAD/2015


Além do Diápora.Black, Carlos Humberto é responsável, ao lado de Adriana Barbosa, da Feira Preta, e de Fernanda Ribeiro, do Afrobusiness, pela fundação do Afrohub, programa de aceleração de afroempreendedores. “Promovemos capacitação técnica e networking. Além de ocupar lugares que não costumamos estar, possibilitamos que a população negra comece a ter acesso a tecnologias que possam impulsionar seus negócios”, detalha o presidente do Diaspora.Black.


A opinião dos afrodescendentes também começa a ganhar espaço e ser considerada pelas empresas mais antenadas aos movimentos de consumo. Luana Téofilo, fundadora do painel BAP (painel de consumidores e comunidade voltada a consumidores e empreendedores negros) conta que a plataforma permite o cadastro de pessoas para participar de pesquisas de mercado em troca de recompensas em dinheiro. De 2016, quando nasceu, até o momento, são cerca de 15 mil pessoas ativas e a meta é chegar a 30 mil até o fim do ano. “A população preta sempre fez comércio entre si. O que está acontecendo agora é uma organização e nomenclatura. As pessoas começam a ter mais ideologia na hora do consumo e há empresas interessadas nisso”, diz.


O Painel BAP já realizou pesquisas para empresas como Nike, Netflix, Uber, Nestlé, Facebook e Google. “Estamos fazendo também pesquisa política para candidatos que querem entender como falar com a população negra. Isso não é apenas modelo de consumo para a comunidade negra, é respiro para o capitalismo”, considera.

O modelo do black Money, no entanto, não é livre de críticas, uma vez que ele ajuda, mas não resolve a situação de desigualdade dos negros. “Acho muito bonita a ideia de que se cada um fazer sua parte poderemos todos nos fortalecer economicamente. Mas acaba por promover apenas extensões de cores diversas da mesma lógica de morte e exploração”, escreve em artigo Suzane Jardim, historiadora e militante do movimento negro.

A empreendedora Cinthia Gomes, proprietária da Cozinha Alternativa Rudie Foodie, endossa as ressalvas. “O black money não resolve as opressões e a discriminação que o negro sofre na nossa sociedade racista. O racismo e exclusão fazem parte do capitalismo. A mulher negra vai continuar na base da pirâmide e vamos continuar discriminados e morrendo”, aponta.


Cinthia lembra que já começou a empreender depois de ser militante do movimento negro, o que possibilitou ter uma rede de contatos nesse meio. “Meu negócio começou a fazer black money organicamente. Somos negros e buscamos contratar afrodescendentes e trans. Nossos contratantes também são instituições que trabalham com igualdade racial, além de negros na pessoa física. Isso favorece principalmente os pequenos negócios, como o nosso”, acredita. Os benefícios, porém, não impedem a empreendedora de replicar uma pergunta ao modelo em que está inserida: “eu quero me dar bem nesse sistema ou eu quero um outro sistema que não me exclua?”. Esses questionamentos e a busca por outros modelos de produção são justamente o que embalam a crescente de consumo entre negros, o black money.


* Originalmente publicado no Guia Negro


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